Brasil 70: A Saga do Tri
Primorosa produção da Neflix emociona e revive a história da maior seleção de futebol de todos os tempos
Estamos em ano de Copa do Mundo. Época em que as diferenças clubísticas e políticas são deixadas de lado (será?), época em que as famílias, os amigos e até os desconhecidos se unem em prol de um só objetivo: torcer pela Seleção Brasileira na caminhada em busca de mais um título mundial. E para aproveitar esse hype natural, a Netflix brinda seus assinantes, em especial os brasileiros, com uma produção brilhante tecnicamente, com algumas liberdades criativas ficcionais, e que conta a história daquela que é considerada a maior seleção jamais vista na história. Com vocês, Brasil 70: A Saga do Tri.

A minissérie é composta de apenas cinco episódios, com cerca de uma hora de duração cada um, e que são facilmente assistidos em maratona, pois já de cara prendem o espectador com atuações fantásticas de um elenco encabeçado por Rodrigo Santoro e Bruno Mazzeo, nos papéis de João Saldanha e Zagallo, respectivamente. Junto a eles, temos um grupo escolhido a dedo para representar os jogadores daquele time, recheado de nomes inesquecíveis de quem acompanha o futebol, e de quem não acompanha também, como Jairzinho, Gérson, Clodoaldo, Tostão, Félix, Carlos Alberto Torres, Rivellino e, claro, Pelé.
A trama acompanha a trajetória da seleção desde as eliminatórias para a classificação para o Mundial do México, quando ainda eram comandados por João Saldanha, jornalista de nome forte na época, conhecido por suas opiniões controversas e contundentes, não só dentro do futebol, mas em especial na política, sendo voz ativa contra a ditadura militar que governava o país naquela época. Independente disso, Saldanha montou um time agressivo, recheado de craques, e que tinha total liberdade para jogar, fazendo uma campanha avassaladora rumo à classificação, com 100% de aproveitamento.
No entanto, diante das tentativas do regime militar de usar a seleção como propaganda, Saldanha, obviamente, batia de frente, se opondo de forma forte, inclusive publicamente. Em dada entrevista, e após uma sugestão de convocação de Dadá Maravilha, Saldanha proferiu uma de suas mais célebres frases, e que acabou lhe custando o emprego, às vésperas da Copa: “Eu não escalo o ministério dele, ele não escala meu time”, se referindo ao presidente Emílio Garrastazu Médici, que teria feito tal sugestão.
Mesmo com todo o mal-estar causado pela ingerência militar na então Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF), a entidade agiu rápido e escolheu Mário Jorge Lobo Zagallo, então técnico do Botafogo, e que tinha sido bicampeão mundial como jogador, nas copas de 58 e 62, para assumir a equipe a apenas 77 dias da estreia no México contra a Tchecoslováquia.
Voltando ao elenco, os trabalhos realizados, principalmente por Santoro e Mazzeo são espetaculares, tanto em caracterização quanto em atuação. Após algumas cenas o espectador já não mais enxerga os atores, em especial para quem viu Saldanha e Zagallo na vida real, tamanha a fidelidade como estes dois personagens do nosso futebol são interpretados. Trabalho primoroso.
Em relação aos jogadores, impossível não se espantar com a semelhança de Lucas Agrícola com Pelé, personagem que, claro, tem mais destaque dentre o grupo de atletas, dada a já sua importância e seu reconhecimento como o Rei do Futebol, e também sobre a desconfiança que sobre ele pairava, em razão das constantes contusões que o perseguiam, principalmente em copas do mundo, como aconteceu em 62 e 66, por exemplo. A performance de Agrícola, em seu primeiro papel nas telas, em conjunto com a extrema semelhança que tem com Pelé, chamam muito a atenção ao longo da série.
Até ex-jogadores de futebol foram usados para dar vida ao elenco tricampeão do mundo, como Fillipe Soutto, que interpretou Gérson, o Canhotinha de Ouro. Ravel Andrade como Tostão é outro grande acerto. O roteiro segue uma linha parecida com a vista em Senna, quando temos eventos de ficção mostrados de forma entrelaçada com acontecimentos reais, inclusive mesclando imagens e cenas de filmagens da época da Copa, com tomadas realizadas especialmente para a série, técnica usada com bastante competência nos jogos, principalmente. Aliás, temos que abrir um parêntese sobre as cenas dos jogos. São simplesmente espetaculares, extremamente bem montadas, com uma captação de som primorosa, e ângulos generosos de dentro de campo, naquela que facilmente é a recriação mais fiel de uma partida de futebol em uma obra audiovisual.
Por tudo isso, Brasil 70: A Saga do Tri é um “esquenta” muito bem-vindo para a Copa do Mundo 2026, funcionando muito para trazer aquele clima que só um mundial de futebol pode proporcionar, ao mesmo tempo em que apresenta um documento de uma época já bastante longínqua, sofrida para o povo, pois a ditadura é mostrada, ainda que como pano de fundo, em toda sua crueldade, mas que tinha no futebol o seu momento de alegria, de desabafo, e que celebrou aquela que, até hoje, é considerada a maior seleção de futebol de todos os tempos. Impossível não se emocionar!
A minissérie está disponível, completa, no catálogo da Netflix.


